A (dupla) jornada de trabalho da mulher na quarentena: uma entrevista com a minha mãe

Por: Renan de Oliveira

A epidemia do novo coronavírus trouxe diversas mudanças nas nossas vidas. A forma como exercemos nosso trabalho talvez tenha sido a que mais sofreu transformações com o impacto dessa nova realidade. Enquanto que para alguns trabalhadores o direito à quarentena nem sequer foi concedido, para outros que passaram a trabalhar de casa, essa nova forma de trabalho apresenta novos desafios, principalmente para as trabalhadoras mulheres. Por isso eu conversei com a minha mãe, Maria de Oliveira, professora da rede pública de Araucária, para entender um pouco melhor quais são esses desafios.

Maria de Oliveira se preparando para gravar uma de suas aulas online / Foto: arquivo pessoal

Renan - Hoje eu estou aqui com a minha mãe, D. Maria, que é professora de educação infantil, e a gente vai falar sobre o trabalho na quarenta. Como está você hoje D. Maria?
Maria - Oi, tudo bem? Eu estou muito bem (risos).

Renan - Que bom que você está bem... A primeira pergunta que eu gostaria de fazer é “Como tem sido conciliar o trabalho da escola com o trabalho doméstico pra você”?
Maria - Não está sendo fácil, não. A gente tem que fazer o trabalho remoto e o trabalho de casa e dar conta disso e dar conta daquilo...

Renan - E você acha que você tem trabalhado mais durante a quarentena? Como tem sido a organização dos seus horários de trabalho?
Maria – Bem, eu acredito que a gente está trabalhando bem mais do que a gente trabalha no nosso local de trabalho. Porque o dia inteiro você tem que ficar cuidando do grupo de whatsapp e ver o que as mães estão respondendo, no meu caso. O meu horário de trabalho é oito horas por dia e apesar da diretora falar que não é pra gente trabalhar além disso, não tem jeito. Porque você manda as atividades por whatsapp, então você tem que ficar cuidando. E tem pais que é onze horas da noite e ainda está mandando atividade.

Renan - Bom, você está tendo que adaptar um pouco o seu trabalho. Como tem sido essa adaptação?
Maria - Nossa, ninguém estava preparado para trabalhar remotamente, ainda mais com crianças bem pequenas. Os meus alunos estão fazendo dois anos esse ano. Então, pensa na dificuldade... Porque uma coisa é você estar trabalhando com as crianças lá na sala de aula, onde você pula e rola no chão com eles... É bem diferente de trabalhar remotamente. Tem atividade que você quer fazer e não dá porque agora você tem que fazer as aulas em vídeo e explicar tudo em vídeo. E essa parte não foi fácil...

Renan - E você acha que essa foi a parte mais difícil de se adaptar?
Maria - A parte mais difícil de se adaptar é a parte que você tem que ficar gravando vídeo. E sabendo que a família toda do seu aluno vai estar te vendo ali. Então, às vezes, nossa... Não é fácil, não!

Renan - Você fica com vergonha?
Maria - Aham, a gente acaba ficando com vergonha.

Renan - E, pela sua experiência, você acha que pras mulheres tem sido mais difícil [que pros homens] conciliar essa questão do trabalho doméstico e do trabalho normal?
Maria - Eu acho que a dificuldade de se reinventar nessa quarentena seja pra ambos. Mas eu acredito que as mulheres trabalham bem mais. Ainda mais aquelas que tem crianças pequenas, né. É obrigatório o trabalho remoto e ela [ainda] tem que cuidar da casa e do marido. Então, as mulheres estão com sobrecarga, eu acredito.

Renan - Muito obrigado, mãe!

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